Não era diferença, era desconexão: uma busca por pertencimento

Não era diferença, era desconexão: uma busca por pertencimento

A jornada de uma jovem entre animações, filmes e música até a aceitação de si mesma

Casal She-ra e Catra- Foto: Reprodução/Netflix

She-Ra e Catra. Foto: Reprodução/Netflix.

Na infância, enquanto as amigas falavam sobre os meninos de quem gostavam, ela não entendia por que não conseguia sentir o mesmo. Para pertencer, inventava paixões que não existiam, acreditava que, com o tempo, os sentimentos surgiriam. Mas os anos se passaram e eles nunca vieram, pelo menos não por meninos.

Aos 12 anos, Ana Luiza entendeu que gostava de mulheres. Ainda assim, reconhecer esse desejo não significou encontrar imediatamente um lugar para se ver. Sem modelos no cotidiano, suas primeiras referências vieram das telas, da música e de amizades virtuais. "Eu queria me sentir bem e pertencente, e pessoalmente não tive nenhum modelo que pudesse me ajudar nessa descoberta, então me sentia desconexa. Meu refúgio foram as personagens e artistas (e também amigas da internet), e isso me fez sentir que eu não era diferente, e sim que eu não conhecia ainda o meu grupo", relata.

Embora tenha percebido aos 12 anos que gostava de mulheres, foi só dois anos depois, ao se reconhecer nas artes e nas obras que consumia, que Ana Luiza encontrou uma sensação de identidade e pertencimento. No episódio final da série de animação, She-Ra e as princesas do poder, exibido em 2020, a protagonista Adora e a antagonista Catra salvam o universo com um beijo e uma declaração de amor. Ana Luiza se sentiu vista em um mundo de seres místicos, encontrou abrigo para pertencer como pessoa real. "Quando terminei de assistir ao desenho, entendi que estava tudo bem em ser lésbica e não gostar de homens, e que eu não precisava me esconder através de um rótulo que eu não me identificava."

De desenhos animados, como She-Ra e Avatar: A Lenda de Korra, filmes como But I'm a Cheerleader, de 1999, que retrata o processo de negação e aceitação da sexualidade, a artistas sáficas como Clairo ou Chappell Roan, seu repertório de referências se tornou mais vasto e a sensação de desencaixe menor. Por sua aparência feminina, compreende que se enxergar nas representações se tornou mais fácil. Mas essa facilidade não se estende a todas as lésbicas. "Muitas vezes a mídia representa apenas casais lésbicos onde ambas são femininas, padrão e brancas, e lésbicas que fogem desse espectro acabam ficando sem visibilidade." Acredita que estudar e lutar para que todas as lésbicas se sintam representadas é necessário; pertencer a uma comunidade é o que transforma a busca por identidade em um ato de acolhimento coletivo.

Entre a vontade de pertencer na infância e o reconhecer-se na adolescência, entender-se como lésbica lhe proporcionou um alívio: não precisar se encaixar em um molde que não cabia, encontrar seu lugar no mundo tornava-se um ato de amor-próprio. "Quando me entendi como lésbica, um peso saiu das minhas costas e não continuei mais a me comparar com meninas hétero e sim a me inspirar em outras lésbicas. Esse título de tentar me encaixar em algo que não me pertencia não fazia mais parte de mim."



Logo The Face of Venus

The Face of Venus

Pequenas histórias, universos inteiros.

© 2026 The Face of Venus